CRÍTICA

The Batman (2022)

Filme de Matt Reeves eleva o homem morcego a novos patamares.

DireçãoMatt Reeves Crítica pordanilobertozzo Onde assistirHBOMax
10
Nota Lâmpada Nerdde 10
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Mil perdões a Francis Ford Coppola e Martin Scorsese, mas filmes de super-heróis também são cinema! Não querendo colocar mais lenha em meio a esta discussão interminável, mas se os filmes da Marvel são parques de diversão sem conteúdo, onde se encaixam os filmes da DC? Talvez fosse essa a pergunta que eu faria a esses diretores renomados em questão de um dos gêneros mais populares da nossa geração. Em 2019, a DC homenageou Scorsese fazendo quase uma releitura de seu clássico de 1982, O Rei da Comédia, e agora em 2022, The Batman homenageia Taxi Driver (1976).

Esta intenção é mais do que clara no filme, já que o Bruce Wayne de Robert Pattinson começa suas falas quase como o protofascista de Robert De Niro no clássico de 76. Nosso primeiro contato com o personagem é através de seus pensamentos, onde Wayne súplica por seus sentimentos mais profundos para que a violenta Gotham City acabe com a corrupção e violência desenfreada como um passe de mágica. E não só a narração em off nos remete ao clássico de Scorsese, mas o diretor Matt Reeves fez questão de escancarar suas referências até os momentos finais do filme.

Como esperado, The Batman é o filme mais detetivesco do Homem-Morcego nos cinemas, e nisso também podemos ver uma clara inspiração em Se7en – Os Sete Crimes Capitais de David Fincher, tendo em vista que a dupla principal -Batman e Jim Gordon- remetem a Morgan Freeman e Brad Pitt investigando assassinatos misteriosos e co-ligados a uma ideologia anticapitalista.

Apenas esse mix de referências e temas já torna The Batman o filme mais interessante do Homem-Morcego, mas Reeves vai além da superfície, e acha espaço para debater mais temas importantes e atuais da nossa sociedade, como milícia digital, fake news, depressão e o papel dos bilionários no século 21. Essa junção acaba se tornando absurdamente bem orquestrada e ainda assim encontra sua assinatura própria, tornando esse um dos filmes mais icônicos de um gênero que a anos vem se repetindo em sua fórmula de ação inofensiva e auto referências para lotar as salas de cinema, e não me entenda mal, as vezes precisamos nos desligar da realidade e apenas nos divertir como vimos em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, mas é impossível negar que as intenções intimistas de The Batman refrescam e expandem a discussão de arte em meio a blockbusters.

Junto com sua narrativa afiada, Reeves também trouxe ótimos colaboradores para criar o tom perfeito ao longa, dentre eles está Greig Fraser, que compõe uma das Gotham City’s mais sufocantes e belas dos cinemas. O diretor de fotografia aposta no desfoque visual para tornar a icônica cidade dos quadrinhos mais violenta e desesperadora do que nunca e ainda assim, consegue em inúmeros momentos colocar o espectador no ponto de vista do próprio Batman. Junto Frases, Michael Giacchino também encontra seu espaço para brilhar com uma composição sonora que vai do sombrio e realista ao otimismo que apenas os super-heróis podem alcançar, essa mistura ajuda Reeves a compor sua visão do Homem-Morcego, mas sem antes respeitar o cerne do personagem acima de tudo.

The Batman é um filme do Batman onde Bruce Wayne quase não aparece, e nos remete a velha discussão de que na verdade Wayne é o disfarce do Homem-Morcego, e não ao contrário. Essa é uma decisão corajosa, mas ainda assim inédita na história do gênero de heróis, tendo em vista que em sua maioria os alter-egos são mais explorados do que o mito do salvador. Ainda assim, Reeves consegue dar destaque ao seu elenco sem nem ao menos suar para isso, nomes como Robert Pattinson e Paul Dano (Charada) são definitivamente o destaque do filme, enquanto Pattinson cria uma atuação mais intimista e depressiva para seu personagem, Dano fica com a parte sombria e perturbadora da trama. Aqui, o Charada é um psicopata ala John Doe (Se7en), mas que ao mesmo tempo é frágil e carrega questões mentais que muitas vezes presenciamos na realidade, inclusive o ator consegue se consagrar com uma das melhores atuações de vilões nos últimos anos e também ascende o topo do hall de ótimos antagonistas no gênero de heróis. Já Zoë Kravitz encanta como a Mulher-Gato, seja por sua beleza fatal ou por seu jeito manso de olhar para a câmera, a atriz se desvencilhar do clichê da ladra sexy que vimos em versões anteriores do cinema, e aposta mais nos três jeitos de uma Bond Girl, e isso funciona tanto em contraste com o próprio Batman de Pattinson, quanto com o excelente e assustador mafioso de John Turturro, Carmine Falcone, que também tem presença marcante no longa e com uma atuação espetacular de seu intérprete.

Em sua junção, The Batman consegue encantar nas cenas de ação, apimentar a discussão sobre o gênero de super-heróis, e ainda assim, explorar a psique e cerne do que torna o Homem-Morcego um dos heróis mais interessantes da Cultura Pop. Reeves consegue entregar um de seus trabalhos mais autorais sem esquecer que este produto nada mais é do que puro entretenimento, mas ainda assim consegue torná-lo relevante para nosso tempo, provando que filmes de super-heróis podem e devem ser cinema de qualidade.